Tá todo mundo louco, ôba!
Ontem, passado o movimento do pão, estou dentro da loja, arrumando a bagunça que a hora de maior movimento geralmente causa. Chega um senhor, negro, alto, forte, camisa suada como quem tivesse tomado um banho, um papel na mão tão desgrenhado quanto ele próprio estava, chama da porta:
- Moça, por favor, essa aqui é a Est. do Capenha?
- É sim.
- Graças à Deus! Isso aqui é o final do mundo, heim moça!
- Por que?
- Estou vindo do Centro da Cidade, tomei 3 conduções, andei feito um camelo no deserto...olha meu estado!
- Ah, moço! Qualquer lugar fica mais distante quando não conhecemos. Não era necessário pegar 3 conduções do Centro pra cá, aliás tem um ônibus de lá que passa por essa rua, a pessoa que não soube informar direito o caminho.
- Bom, que número é esse aqui?
- 1371.
- O quê? Eu preciso ir pro 252...Deve ser lá na
PQP, né não?
- É sim. Essa estrada aqui é looooonga.
E ele, entrando em desespero:
- Ah! Mas eu não vou andar essa
M. de jeito nenhum. (Começa a apontar pro papel amassado) Passo mais esse perrengue, chego lá e a
VACA da mulher não está lá...Ela marcou na ficha pra chegar no fim da manhã, já é de tarde...claro que ela não vai estar esperando (e sacode o papel). Se fosse pra receber estaria, mas pra pagar a
VACA não vai esperar mesmo.
Essa alturas, já estou prendendo o riso.
- Moço, tem um ônibus aqui que passa na rua inteira.
- Té quinfim uma notícia boa.
- É, mas ele só passa de meia em meia hora e eu não observei se já passou algum.
-
- Pois eu vou ligar pra firma, o cobrador dessa área não veio, me mandaram pra cá, aquele
vi*&%$ ao invés de me passar as informações, ficou querendo se fazer de útil e me colocou nessa furada.
Deixo ele falando ao celular e entro pra me acabar de rir, sem que ele pudesse vir a se aborrecer com isso. Do jeito que ele estava transtornado, não me admiraria, se ele se invocasse com meu riso frouxo...Ora, vamos e venhamos: "no dos outros é refresco!"
Não demora muito e ele grita lá de fora: "moça, moça...é essa o ônibus? Esse aqui? É esse?"
Eu saio rápido...
- É esse aí sim.
Ele vai pro meio da rua, pulando igual pipoca, gesticulando e gritando: 'Pára! Pára essa
M., Pára!"
O motorista pára em frente a loja, tem uma moça descendo calmamente (micro ônibus, tem uma porta só, todo mundo sabe, né?), ele agarra a mulher pelo braço, puxa ela, pra apressar a descida e a mulher vem:
-

ai, meu Deus! Que isso, meu Deus!
Ah! Digo à vocês com sinceridade, que se não estivesse sozinha na loja, teria entrado naquele ônibus junto com ele, queria saber o desfecho disso. Imaginem vocês, se ele chega lá, nesse stress e realmente não encontra a mulher por quem ele preocurava... Acho que ele ia ter um treco na portaria.
Por falar em treco, quem quase estava tendo um era eu, sentei no banco de concreto do lado de fora e ri, como há muito tempo não ria de ninguém.
E a mulher: "Você pode me dizer o que foi aquilo?"
- Liga não, dona. Ele está estressado...
- Estressado? Esse homem é um assassino. Ele poderia ter me matado!
