
[Sexta-feira, Dezembro 31, 2004]
Receita para o Ano Novo
Para você ganhar um belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou a cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
Para você ganhar um ano,
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(à começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha
ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa fazer listas de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e sejam tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo
de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo cochila
e espera desde sempre
não precisa esperar a comemoração.
Por Carlos Drummond de Andrade
···Meus queridos amigos, que cada um de nós, consigamos despertar o Ano Novo, a pessoa nova, que cochila em nós, quando explodir os primeiros fogos desta madrugada e que no decorrer de 2005, sejamos pessoas melhores: como seres-humanos, cidadãos, trabalhadores, sonhadores...
···Desejo à cada um que passou por esse blog, felicidades. Não sei o que isso significa à cada um de vocês, mas seja o que for, estarei torcendo para que se concretize na vida de cada um.
···Grande prazer tê-los tido comigo em 2004, antes no Vida S.A, agora aqui.
···E lá vamos nós pra primeira (e única) folga do Ano. Reabriremos em 02/01. Espero todos vocês em 2005!
···FELIZ ANO NOVO!!!
Contado por Fê às [4:13 PM]
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[Quinta-feira, Dezembro 30, 2004]
Série Flashback - Limpando os arquivos para um 2005 só de novidades
Hora do Abuso
Estive doente uns dois dias e não trabalhei. Lógico que a carga dobrada caiu em cima do André, que pode-se imaginar como estava de cansaço.
O pobre, que tinha que abrir a loja às 7:00, às 7 horas ainda estava acordando, aliás, eu o acordei, apressado. Pois acreditem, 07:01 estavam gritando no portão de casa porque ele estava atrasado. Atrasado?! Eu tive vontade de dizer:
"atrasado, não. Hoje não vamos abrir! Vá comprar teu pão na PU-TA-QUE-LHE-PÁ-RI-Ú!!!!"
Que é isso?! Acho um abuso virem chamar na minha porta. Acho pior não terem paciência de esperar um minuto! Quem deu essa liberdade de virem em minha porta questionarem a minha vida?! E se fosse um caso de (Deus me livre!) morte? Teria que vender o pão de luto pra que mantenham a comodidade?
Gente, sábado, sete da manhã, uns velinhos de 60,65,70 anos que fazem fila na porta todo santo dia com o propósito de...de nada, todos aposentados, nada para fazer, pressa pra quê?!
Daí, que levantei junto com ele, passei o café e fui à loja levar, quando chego ainda está lá a fila do INSS, ajudo a dissolver a fila e uma outra velha sisma de
contar que a insulina dela só estava com um dedo, "não sei aplicar com tão pouco...", foi me dando uma coisa! Me deu vontade de esbofetear a velha, assim, num surto psíquico...resolvi cortar a conversa e vir embora para casa tomar um banho para acordar.
O que me estressa é essa coisa de ser vista como extensão do balcão...Pessoas que não podem se atrasar, que não podem relaxar, apenas pessoas que devem servir. Sou tão balcão, quanto o meu balcão.
Contado por Fê às [6:46 PM]
Debruce Você Também:
[Terça-feira, Dezembro 28, 2004]
"Prancheteira"?
Estão fazendo um ponto de Kombis aqui na rua, mais precisamente em frente à loja...Logo cedo, quando abri, um senhor, motorista de uma das Kombis, veio tomar um cafezinho...
- O "prancheteiro" não chegou ainda, né?
- Não, senhor.
Bebe o café...
- Você vendo o "prancheteiro" chegar, avisa que eu já cheguei e já saí?
- Se eu ver, aviso.
Passam as horas, o "prancheteiro" chega, mas eu não o vejo...eles ficam do lado de fora, ele não entrou pra tomar café, fila do pão, entregas chegando...
O tal senhor entra de novo, joga as chaves sobre o balcão, fala em tom alto de briga:
- Vem cá, eu não te pedi pra avisar ao "prancheteiro" que eu cheguei cedo e saí? Ele está sem saber meu paradeiro...
Interrompo, tom manso, de estupefação e esclarecimento:
- Meu senhor, nossa conversa foi muito clara...eu disse que se eu o visse, falaria, acontece que eu não o vi, agora se o senhor passar a manhã vendendo pão aqui pra mim, posso com prazer me ocupar em fiscalizar o seu fiscal...
O tom de voz abaixou, o olhar esfriou, ele chamou o prancheteiro e eu confirmei, gentilmente, o caso.
Digam aí: não me faltava mais nada, né não?!
E cá entre nós...o que vem a ser um prancheteiro? Prancheteiro é um sujeito que fica o dia inteiro, no ócio, com uma prancheta em punho, anotando quem chega ou sai do ponto. Muito produtivo, não é mesmo? Tem tudo a ver com meu perfil!!!
Contado por Fê às [8:28 PM]
Debruce Você Também:
[Segunda-feira, Dezembro 27, 2004]
Se Ocupar Chama Cliente
É impressionante, pode-se passar uma hora inteira sem entrar viva alma na loja, sonolência absoluta, mas se você se ocupar começa a fazer fila:
1- Ler chama cliente: jornais, revistas, livros, matéria de prova, panfleto...Basta se interessar que entra alguém.
2- Limpar a máquina de frios, chama clientes. É desmontar a máquina e debruça alguém: "me dá 100g de queijo?"
3- Receber mercadorias, chama clientes. Caixas e caixas espalhadas pelo chão é batata pra começar fila.
4- Precisar contar os potes de moedas, chama clientes. É entornar o pote e entra um atrás do outro...
5- Embalar o pão doce, chama clientes...Hoje não seria diferente:
Saí pra ir ao banco, André sozinho, passou exata uma hora de ócio na loja, chega o padeiro com os pães doces, sonhos e pães de mel. Ele recebe as formas enormes, que nunca tem onde acomodar...Limpa o balcão frio, tira a balança pra dar espaço, pega o rolo de PVC que mais parece uma manilha de tão grande...Tudo pronto! Põe a luva descartável pra manuziar os pães, filme esticado... Entra uma moça, joga as chaves em cima do plástico esticado (sim, esse povo não se liga): "Cem gramas de presunto, por favor?!"
Descola o PVC sujo de chave do balcão, joga fora... religa a balança? Qual o quê!
- Sinto muito, mas a balança está desligada agora...Dá pra passar daqui a pouco?!
E não é que descobri que a paciência do André também tem limite? Me sinto menos culpada agora! HAHAHA
Contado por Fê às [6:24 PM]
Debruce Você Também:
[Domingo, Dezembro 26, 2004]
Reabrindo a Loja
Pra falar a verdade, essa história ainda é de natal...Daqui de casa dá pra ver a loja, a loja dia 25/12, como contei, não abriu, isso foi bem avisado, embora sob protesto de vários clientes...mas cumprimos a "promessa" e, claro, não abrimos.
Manhã de natal, olhamos pela janela e o que vimos? Fila na porta! O povo dava de cara com a porta fechada, dava uns passinhos pra trás e olhava aqui pra casa ou então, ficavam sentados no banco, olhando pra nossa casa, esperando que mudássemos de idéia, talvez.
Por fim, passou um senhor, embrulho de pão em punho, olha minha sogra na janela e faz um olhar com um quê de "não preciso de vocês pra nada!"
E, isso foi o suficiente pra fecharmos a janela e não olharmos mais, vai que somos apedrejados por ter tirado o dia de Natal de descanso? Afinal, somos o balcão e balcão não tem religiosidade, família ou cansaço, não é mesmo?!
Contado por Fê às [3:36 PM]
Debruce Você Também:
[Sexta-feira, Dezembro 24, 2004]
Pausa para o Natal
Nesse momento, nossas portas se fecham para receber o Natal (lamento se isso aborrece algumas "madames", mas nós, comerciantes, também temos família e temos direito a isso, nem que seja uma única vez no ano).
Agradeço à visita de todos que se debruçaram por aqui e deixaram seus comentários, a torcida ou, simplesmente, nos leram e sorriram enquanto nós desabafávamos... Garimpar de todo o estresse essas figuras inusitadas e dar leveza à elas pra contar à vocês, deixou a rotina mais suave, fez com que até nós mesmos, achássemos graça em nos deparar com o absurdo.
Por tanto, desejo-lhes, meus bons amigos (virtuais ou não), que Deus lhes traga em dobro, toda a compania, a alegria, sinceridade e amizade que vocês depositaram no nosso "balcão".
Uma noite muito feliz à todos!
A gente se encontra dia 26/12.
Contado por Fê às [4:22 PM]
Debruce Você Também:
[Quinta-feira, Dezembro 23, 2004]
Lá Vai a Saia Justa de Natal)
Hoje o doido entrou disfarçado de cordeiro, digo, a doida. Entrou, comprou normalmente, bem simpática até: pegou, pagou, voltou, antes de chegar a porta da loja...
- Que horas vocês fecham amanhã?
- A princípio ao meio-dia, mas tendo movimento a gente estende até às 14:00.
- Como assim?
- Como assim?! - Queixo caído!-
- Fechar meio-dia é um absurdo! É dia de semana, tem que fechar na hora...Vai que falta alguma coisa na ceia? Não tem lugar nenhum pra comprar... (tom de voz alterado, já batendo no vidro do balcão)
Dou um sorriso de quem pergunta:" isso é brincadeira?"
- Isso é um comércio...Serviço de utilidade pública...
Queixo cai mais um tanto! Senhoras e senhores, acreditem, não era brincadeira, a mulher ficou brava, com a possibilidade de lhe faltar algo e não estarmos abertos pra servi-lhe.
Fiquei apenas olhando de queixo caído, sabem, me pegou de surpresa, como falei, ela parecia alguém normal...
Depois, fiquei remoendo a vontade de responder...
- E a sra. sua mãe, vai bem? Estará a mesa com a Sra?!
O André disse uma:
- Por que você (eu no caso), não disse à ela: ...e se o marido da sra não lhe servir para os atributos domésticos, o meu estará aqui, viu?!
Como assim?! Oferecer meu marido? Nem pensar...Fico mesmo com a minha opção, até porque, xingar a mãe, surte muito mais efeito...
Falando em surtir, lembro surtar e falando em surtar... surtado esse povo, não tem outro adjetivo!!!
Contado por Fê às [11:24 PM]
Debruce Você Também:
[Terça-feira, Dezembro 21, 2004]
"TRASHlivery"
Estou lá, sentada em meus cinco minutos de descanso de pernas, de fora é impossível me ver...pára duas senhoras num táxi (uma delas dirigindo o carro).
- Moça! Hei, Moçaaaaa!
Pensamento: "isso é comigo?!"
Buzinaço e mais "moçaaaaaa"
Pensamento: "gente, só pode ser comigo!"
Levanto e fico a mostra no balcão.
- Oi! Tem Coca Light?
- Tem sim.
- Quanto é?
Pensam que uma delas saiu do carro para pegar o refrigerante? Qual o quê! Ficaram buzinando lá fora, esperando a entrega.
Lá vamos nós no Delivery mais bizarro a que tive relato...Eita, povo abusado!
Tem mais...
Quando entro de volta na loja,dou de cara com um rapaz, suado de apressado...
- Oi! Você comprou o jornal hoje?
- Não.
Ele dá um obrigado e some tal e qual apareceu.
Droga! Deveria ter perguntado por quê antes de dar a resposta, agora nunca saberei pra que a pressa em ler o jornal do dia...
Curioooosa, sim e daí?!
Contado por Fê às [7:39 PM]
Debruce Você Também:
[Segunda-feira, Dezembro 20, 2004]
Flashback: Penúltimo da Série (ou lá se vai o meu estoque)
Tilintar das Moedinhas
Ou está havendo uma conscientização nacional a respeito do uso das moedas ou o povo está mesmo com a corda no pescoço.
Não sei se alguém se lembra, mas várias vezes os jornais noticiaram a falta de uso das moedas, principalmente as de R$ 0,01 no comércio. Não era possível esse sumiço uma vez que a Casa da Moeda não pára de fabricá-las. Os supermercados, que se utilizam muito dos preços em R$0,99 tinham promoções, onde se o cliente juntasse tantas moedinhas de R$0,01 ganhariam um brinde, ou o valor em moedas dobravam no caixa, para o pessoal se animar em catar as moedas, em fazer esse dinheiro, que sempre foi motivo de peso e vergonha circularem.
Hoje, eu recebo taaantas moedinhas de R$0,05 e R$0,01...Ainda hoje levei 5kg delas para o banco. Incrível! Eu acho ótimo, muitas vezes essas moedinhas nos tiram do sufoco...ao que parece, vem tirando muita gente do sufoco na verdade.
As moedinhas têm sido o pãozinho de cada dia.
Contado por Fê às [6:30 PM]
Debruce Você Também:
[Domingo, Dezembro 19, 2004]
Gringos
Entram dois gringos na loja falando Espanhol...Quer dizer, um deles, tinha um "portunhol" bem afiado e foi quem fez o pedido. André lhes servem...Falta
R$1,00 para pagar a conta, o rapaz do portunhol pede para pagar depois, diz que está hospedado na casa de um vizinho nosso...O outro, prontamente, abre a carteira para pagar a conta e os dois turistas põe-se a brigar.
O André assiste com os braços repousados sobre o balcão, de frente aos dois e entende que o rapaz não quer que o outro pague a conta (pelo "portunhol" dá pra deduzir que um deles já deve morar aqui, apenas o outro está de visita e por isso a briga)... André se entromete:
- pero que si, pero que nõ, guarda tu dineiro que ele me paga despueis...
Os dois param a discussão, olham pra ele, não entendem nada..."É piada?" "É deboche?" Ficam meio sem ação. Fato é que resolveu. O rapaz que fez o pedido agradece, o outro fecha a carteira e saem em fila...
Dentro do balcão esse meu marido também me apronta cada uma!
Contado por Fê às [11:18 AM]
Debruce Você Também:
[Sexta-feira, Dezembro 17, 2004]
Lamento(?)
Eu sei que desde ontem, não aparece nenhum post novo. Eu sei. Eu sei. Que eu posso fazer se o mundo patético que debruça em meu balcão resolveu dar uma folga? Aquilo lá não é um circo e por tanto, nem sempre tem palhaço a solta no picadeiro, fazer o quê?!
Contado por Fê às [10:10 PM]
Debruce Você Também:
[Quarta-feira, Dezembro 15, 2004]
Quando o Gato Sai...
Sabem o Sr. do episódio da carne seca? Hoje ele voltou. Não. Felizmente não veio me responsabilizar pelo feijão salgado, ao contrário, agradeceu a dica culinária e comprou detergente, adivinhem para quê? Morram de rir: para lavar roupa na máquina de lavar.
- Mas, o sr. não pode lavar roupa com isso! Vai fazer uma espuma danada na máquina, não vai limpar direito e ainda capaz de deixar as roupas duras ou estragar as roupas por conta do desengordurante...
- Ah! Minha mulher não está em casa, levou minha carteira, eu vou lavar é com isso mesmo...Se ficar dura, melhor, ela vai achar que além de lavar eu passei a roupa...
...Silêncio...
Pensei cá com meus botões: para fiar cerveja ele pede, para fazer as coisas direito em casa para esposa, ela saiu e levou a carteira
dele e vai assim mesmo? Então, tá! Que vá.
Contado por Fê às [6:41 PM]
Debruce Você Também:
[Terça-feira, Dezembro 14, 2004]
Constatações Comerciais
- Pão quente vende mais que pão frio;
- Coca-Cola vende mais que pão quente;
- Prateleiras vazias afastam clientes, não precisa ter variedade, desde que tenha aparência de fartura para chamar freguês;
- Produto, mesmo que de giro alto, sozinho na prateleira, tende a não vender;
- Quando aparece a primeira nota de R$50,00 pode contar que o troco vai embora rapidinho;
- Notas de R$5,00 são raridades no mercado;
- Sonhos de creme vendem mais que os de doce de leite;
- Verão aumenta a venda de pães e frios quase que ao dobro;
- Cardápio nacional de final de semana é estrogonofe e macarrão...aumenta a venda de creme de leite, batata palha e massas;
- Mulheres mal-amadas são mestres em reclamações desnecessárias e escândalos impróprios;
- Todos os vendedores dão uma de espertos quando a compra é realizada por mulher.
Bem, hoje não havia nada de extraordinário a postar (nem sempre a vida solta palhaço no picadeiro), então resolvi contar-lhes essa minha percepção, seguindo a idéia do post da Mah... Obrigada, amiga!
Contado por Fê às [5:48 PM]
Debruce Você Também:
[Segunda-feira, Dezembro 13, 2004]
Mestre Cuca
Não basta só vender o alimento, tem-se também que saber cozinhar pra fazê-lo? Hoje entrou um cliente na loja, pegou um pacote de carne-seca, perguntou:
- Estou fazendo um feijão lá em casa, essa carne-seca é boa?
- Olha, gosto é pessoal, difícil dizer que é uma maravilha, se o seu paladar não se parecer com o meu, pode parecer que eu estou empurrando o produto, agora, eu não sou chegada a carne-seca e uso bastande dela na minha casa...
- Quantas vezes precisa ferver?
- Eu deixo um pouco de molho, troco uma duas vezes a água, dou uma fervura e basta.
- Olha, vou levar, vou ferver uma vez, se você salgar o meu feijão, volto aqui pra te responsabilizar, hein!?
Pensem comigo...Ele quer cozinhar sem provar a comida? Putz! Dessalga a carne o quanto ele quizer, experimenta, se está bom de sal pro seu paladar é o suficiente, se não, ferva outra vez. Agora vou ter que ficar dando uma de Ana Maria Braga aqui? Se não der certo virá me responsabilizar é boa...Já não está bom vender, comprar, arrumar, limpar, lhe dar com maluco, agora terei que ter dicar de culinária a mão? Acúmulo de mais de funções, né não!?
Contado por Fê às [6:21 PM]
Debruce Você Também:
[Domingo, Dezembro 12, 2004]
Se cercar vira hospício
Prestes a encerrar o expediente de ontem, entram duas senhoras e uma garotinha na loja. Uma das senhoras, trazia na cabeça uma armação de espuma que mais parecia alegoria de escola de samba, só que bem mais mal feita. Demos aquela entre-olhada que nos é peculiar, segurei o riso e fui atender a dona, enquanto o André, de costas, limpava a máquina de cortar frios.
De repente a menininha que entrou com elas, saí correndo pra rua e a mulher com a armação de espuma na cabeça, grita a planos pulmões: "fulana, você está louca?!"
O André levanta a cabeça, passa o olhar na cena e resmunga: "a menina está louca e ela, com essa caixa surpresa de bolo na cabeça? É pra ser chamada de quê? Alucinada? Doida de Pedra? Maluca? Demente? Retardada?"
Qualquer uma é válida, sim. Vamos e venhamos, normal é que ela não era, andando normalmente com "aquilo" na cabeça e nem carnaval é ainda...
Contado por Fê às [10:35 AM]
Debruce Você Também:
[Sábado, Dezembro 11, 2004]
Muito Esperto se Atrapalha
Rapazinho esperto entra na loja, dinheiro embolado na mão, estica o braço e passa o dinheiro ao André como quem brinca de passa-anel, escondidinho, pede um cigarro a varejo.
Quando o André estica a nota para guardar no caixa, a nota cortada ao meio. Ele não pensa duas vezes, tira o cigarro do maço, parte ele ao meio, esconde na mão e o passa as mãos do rapaz do mesmo modo com que lhe foi passado o dinheiro.
-Qual é cara?
O André puxa as duas partes da nota e diz: "esse dinheiro só compra esse cigarro".
Não deu pra segurar: risos, muitos risos...e o espertinho, gago, tentando justificar o injustificável.
Contado por Fê às [11:04 AM]
Debruce Você Também:
[Quinta-feira, Dezembro 09, 2004]
Detetive de 1/2 Tigela
Estava eu atendendo, o André aproveitando pra ir ao banheiro, entra uma moça, pinta de "patricinha"...
-Vem cá, você é a única responsável pela loja?
-Por que?
-É ou não?
-Não, trabalho com meu marido, por quê?
-Ele está?
Sai o André do banheiro, ela olha pra ele, olha, pergunta:
-O Monza é seu?
-Sim.
-É que ele está sempre parado aí na frente, está com a lanterna quebrada...
-E daí?
-Daí que eu sou a dona daquele Celta cinza, eu faço aula na faculdade toda sexta de 19:00 às 21:00, paro o carro sempre ali e um dia encontrei meu carro com a porta batida, uns rapazes que costumam tomar cerveja aqui na porta disseram que foi um carro preto que me bateu, dando ré e como seu carro está batido vim tirar satisfação contigo...
-Querida, meu carro está batido, porque bateram nele estacionado na minha garagem...vê bem se eu, trabalhando aqui, morador da rua há mais de 30 anos ia bater em alguém aqui na frente e me fingir de morto, nem que eu quizesse.
-É, mas também disseram que o cara era garotão...Desculpa, heim!
Mais um dos nossos famosos entre-olhares, silêncio no recinto...
Pára tudo...Como assim? Além de vir tomar satisfação toda errada:
1- Ela não pode concluir que qualquer carro escuro seja o autor da batida, se ela não viu: perdeu!
2- Nosso carro é cinza, não é preto;
3- Ela não estaciona o carro, ela pára ele de qualquer jeito, numa calçada estreita que além de bloquear a passagem de pedestres, fica metade pra fora da rua, passível de um ônibus passar por cima com toda razão;
4- Chama meu marido, minha coisa mais linda de velho?
Velho é teu passado, vaca!!! Chupar um prego pra ver se vira parafuso!!!
Contado por Fê às [12:04 PM]
Debruce Você Também:
[Quarta-feira, Dezembro 08, 2004]
Nada de Extraordinário no Dia? Série Flashback
Travesti Vendedor
Meio-dia, bar lotado de estudantes famintos por salgadinhos, entra um travesti na loja. Travesti? Não sei se é esse o nome que se dá. O fato é que era um gay: calça jeans apertadinha, unhas e sombrancelhas bem feitas, muitas bijous,cabelos grandes, salto alto...Um glamour maior que o meu, que sou de fato mulher.
Ele (ou dizer ela?), queria vender produtos de festa (velinhas, bolas). Preconceito não é comigo, não mesmo. Atendi normalmente, pedi que esperasse, esvaziei a loja dos estudantes (que esses sim,ficaram assombrados) e o atendi. Comprei. E a "biba", no final de tudo, chorou como criança.
Disse que minha alma era iluminada, que não o destratei, que era uma dama! "Ah, meu Deus! Só comigo!"- pensei.
Acreditem, ele (escolhi dizer assim, embora se chame Luciene) tem uma filha e ainda mora com a mãe da menina. A ex-mulher aceitou a opção sexual dele (essa sim tem uma alma iluminada), se separaram, ele continuou com a filha por uma questão financeira e ela foi batalhar a vida. No meio do caminho, contraiu meningite,ficou entre a vida e a morte, toda a família a abandonou no leito do hospital por medo de contrair a doença, mesmo os pais da moça. Ele, que era estabilizado em seu emprego, largou tudo e esteve dia e noite ao lado dela. Desfez a casa dele foi morar com o pai. Quer dizer,a filha dele foi morar com o avô, porque ele morou no hospital cuidando da mulher. Mesmo desenganada pelos médicos ele não a abandonou e um dia o milagre: ela recebeu alta. Claro, tem seqüelas, mas ele montou sua casa de novo e cuida dela. Para isso, precisa trabalhar; resolveu que seria um bom caminho vender esses artigos pra festa,porém, muita gente nem o recebe por causa de sua aparência.
Essas alturas, já era íntima e disse que de fato ele precisa mudar sua apresentação. O que ele dá é problema dele, mas não tem que andar por aí se expondo no meio profissional, o mundo é heterossexual, é preconceituoso e se ele quizer chegar em
algum lugar não é esfregando na cara de ninguém o que ele é... Estou errada? Gente, eu tenho uma sinceridade infantil. Também tenho uma discrição que não tem tamanho,discrição essa que se lapidou ao longo desses meses de balcão, é como se
fosse um confessionário, mas se debruçar no meu balcão pra falar da vida, dou lencinho, aguinha com açúcar, mas dou palpite também. E acho que é isso que o povo quer.
Essa estória em particular me tocou. Quem sabe a mulher não vira "sapata" e casa com a "biba" de novo?
Acho que a filha iria gostar. Lembrando da filha: como será que é pra menina conviver com um pai que é uma mãe? Cada coisa...
Contado por Fê às [5:17 PM]
Debruce Você Também:
[Segunda-feira, Dezembro 06, 2004]
Mais um Maluco
Hoje entrou um maluco na loja, não um maluco qualquer, um maluco que por um acaso também é vizinho da nossa casa...Sujeito cachaceiro, perde a noção de tudo quando está em crise alcóolica, cara barbada, calça suja de fezes, fedia...Estava bem distraída abrindo a loja, ele dá um grito:
- Oi!
Eu com a cara disconfiada: -Oi!
- Tá sabendo que a mamãe morreu?
- Sua mãe morreu, como assim?
- Morreu! Tem um cara gritando pela rua, dizendo que a mamãe morreu...
O cara gritando na rua era alucinação, claro, eu não ouvi ninguém gritar...Mas, vai que a mãe dele, uma senhora idosa, inválida, sozinha com ele, tivesse morrido em casa? Entrei em pânico.
A jornaleira chega pra abrir a banca e lá vai o louco contar-lhe a mesma história e também a uma outra senhora amiga da mãe dele...As três a-pa-vo-ra-das, pensando em como encarar o cachorro solto, entrar na casa e assim descobrir o cadáver ou não, até que a terceira senhora a receber a notícia, tem a idéia de ao invés de enfrentar o cachorro, ligar...atende a defunta:
- Como assim eu morri? Morri nada! Bem que ele gostaria...Esse cachaceiro do meu filho tá é tendo alucinações de novo e agora resolveu me matar pra vizinhança...Passei a madrugada ouvindo ele dizer que eu morri, só não esperava que a notícia fosse atravessar o portão.
Depois do mistério resolvido o próprio maluco resolveu dizer que a alucinação dele era um mentiroso e que a mãe estava viva em casa, mas vai saber...
E por falar em cachaceiro, não bastava o pânico que o primeiro me causou, ainda de manhã me chega outro...todo quebrado, engessado, desmemoriado (etílicamente falando), como sempre madruga em busca de R$0,50 para calibrar seu teor alcóolico, dessa vez trazia uma cara de grande interrogação, perguntei:
- O que houve?
Sem resposta...Derrotas não se contam...
Ao passar do dia os conhecidos vão contando um pedaço e outro da história, ele mesmo não se lembra de nada:
- foi tombo.
- foi acidente.
- foi atropelamento
- foi excesso de moedas de R$ 0,50...
Ele mesmo não sabe explicar...Nós, com toda perspicácia de balcão, fomos juntando as peças até concluir o acontecido. Heis que ele dá de frente com o nosso já conhecido agressor...nos entreolhamos com aquele ar de "não vai prestar", ele no entanto, vira-se pro sujeito e pergunta: "Você sabe quem foi que me bateu?"
Contado por Fê às [11:11 PM]
Debruce Você Também:
[Domingo, Dezembro 05, 2004]
Salvos pelo Gongo!
Domingo, 14:00 horas, prontos para encerrar o expediente, mas batendo papo dentro da loja vazia. Entra um bêbado:
-André, chega aqui...
Quando saímos, demos de encontro com um outro bêbado sentado no famoso banco de concreto do lado de fora da loja, violão em punho, assim que nos viu saindo, mandou os dedos nas cordas, mais pra lá do que pra cá:
- Vi tanta areia andei...
Saía mais o bafo de cachaça que qualquer nota, pescoço esticado como se estivesse fazendo grande coisa. O outro bêbado que entrou pra chamar, senta ao lado, corpo curvado, mão segurando a cabeça, olhar baixo de quem já não suportaria mais uma gota até o coma alcóolico: "lindo isso, né Dé?"
Nos entre-olhamos, uma risadinha escondida e...
-Lindo, sim...mas está na nossa hora. Vocês fiquem a vontade aí...
O bêbado gasguita do violão, interrompe a cantoria:
-Posso voltar outro dia? Quando estiver aberto?
E o uníssono: "NÃO!"
André: - Não é por nada, não, chefia, mas é que não temos estrutura pra cantoria aqui, nosso trabalho não é esse, atrapalharia um pouco. Mas hoje, o banquinho é de vocês, podem ficar a vontade, aí viu?!
O relógio nunca havia me prestado tamanho favor: bendita hora de fechar! Se me chegam 15 minutos antes, perceberiam nossa falta de estrutura, estrutura emocional pra suportar "um maluco batendo palma pra outro dançar"...
Contado por Fê às [5:30 PM]
Debruce Você Também:
[Sábado, Dezembro 04, 2004]
Estresse
Estava entediada na loja, todo sábado a tarde a mesma coisa, parece que o mundo pára e o relógio congela...eis que entra uma dona pisando firme, vestido esvoaçante, saquinho de pão na mão e antes que pudesse pensar em dizer alguma coisa ela começa a gritar:
-Minha filha, esse pão está dormido! Fui lanchar agora a tarde e este pão está dormido...quero avisar que eu vou denunciar essa espelunca, vou ver você e sua família sem eira nem beira. Eu conheço seu marido desde criancinha, mas eu não tô nem aí, fecho essa M*rda toda aqui!
-Desculpa, senhora. Até agora não fui indelicada com a senhora, aliás nem sei do que se trata...podemos tentar um tom mais civilizado?
-Querida, meu filho esteve aqui às 10:00 da manhã comprando 8 pães, eu fui comer o pão agora e ele está dormido...Não sei se é pessoal, mas essa já é a sexta vez que acontece e eu vou denunciar vocês...Não vou denunciar a padaria, vou denunciar vocês que me atendem,que deveriam estar atentos a padaria e não estam.
-Senhora, sinto muito, mas um pão comprado às 10:00 da manhã deixa de estar fresco às 17:00...Se começa a virar moda comprar pão de manhã e virem trocar por fresco a tarde, não precisa denunciar nada não, eu fecho as portas por minha conta: vou falir!
-Você está me chamando de mentirosa?
-De jeito nenhum, só estou dizendo que não vou trocar esse pão, porque óbvio que ele não é mais o mesmo da manhã...Se ele realmente estava dormido, deveria ser trocado na hora que foi, agora não posso nem avaliar se o pão é meu.
-Ele não veio de manhã porque é um pamonha.
E toma de gritar, espernear, xingar, gesticular na porta da mercearia...
-Minha senhora, vamos combinar? Não estou habituada a bater boca com ninguém...Toma aqui seu pão, vou pagar 0,25 pela minha tranqüilidade, estamos conversadas?!
Ai, Deus! Acho que não pedi direito...O Senhor não entendeu o que seria acabar com o marasmo, não tinha ao acaso um episódio divertido guardado?
Da próxima vez eu me conformo com o tédio!
Contado por Fê às [11:02 PM]
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[Sexta-feira, Dezembro 03, 2004]
Má Educação
Hoje chegou um carinha da faculdade (na esquina da rua tem um Campus), parou o carro quase dentro da loja, desceu tranqüilamente com uma big mochila nas costas, abriu a mala, colocou suas tralhas dentro e já ia largando o carro por ali mesmo...O André deu um salto da loja à rua:
- Campeão! Hei, campeão! Cê pretende demorar muito?
- Não. Eu volto logo, por quê?
- Porque o carro aqui atrapalha a passagem das pessoas, a entrada da loja...
O "pit-boy" estufando o peito:
- Meu irmão, a rua é pública...
- Por isso mesmo. Se você estivesse dentro da sua casa, a casa é sua e querendo estacionar dentro da sua sala o problema é só seu, aqui não, a rua é pública...pública porque é pro uso de todos. O que é público a gente não usa como quer, tem que pensar no bem estar de todo mundo e foi só por que é público que eu vim atrás de você...agora se você achar que tem que deixar por aí mesmo, fica a vontade: sua consciência e você.
O peito estufado, virou cabeça baixa...o carinha entrou no carro de novo, engatou a ré resmungando e foi pra outro canto...Canto esse, que ocupou do início da tarde e lá permanecia até às 21:30, isso porque ele não ia demorar...
E é isso que cansa às vezes: atender, ser caixa, repositor, faxineiro, comprador e...fiscal urbano de gente sem educação.
Contado por Fê às [9:39 PM]
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[Quinta-feira, Dezembro 02, 2004]
Essa Nem Com Tecla SAP
-Três pães.
-Quantos?
-Três. Quer dizer... É de agora ou chegou há muito tempo?
-É de agora, está quentinho.
-Então me vê só dois.
...Silêncio...
Não há questionamento possível... quanto mais relato, menos entendo.
Contado por Fê às [10:19 AM]
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[Quarta-feira, Dezembro 01, 2004]
Tecla SAP
- Tem manteiga em tablete?
- Não. Só em pote.
- Mas, é doce?
...silêncio...
Pensa, pensa: manteiga sem sal, manteiga de baixo colesterol, manteiga com açúcar? Um relâmpago:
- Pra comer com pão doce, o senhor quer dizer?
Risinho sem graça do cliente.
- Isso mesmo!
Agora eu penso: "como é que ele consegue tão rápida tradução? Fosse eu, cairia na gargalhada e só".
Contado por Fê às [1:04 PM]
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